Um exemplo de resistência católica: a princesa Pallavicini

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, em 12 de julho de 2017.
Tradução: P. A. Costa

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Giuseppe Vasi, Palazzo Rospigliosi, incisione all’acquaforte, del 1745-1765.


Ocorrem os quarenta anos de um evento histórico: a conferência realizada a 6 de junho de 1977 por Dom Marcel Lefebvre no palácio Pallavicini, em Roma, sobre o tema “A Igreja após o Concílio”. Creio [ser] útil revocar aquele evento, com base nas anotações e documentos que conservo. Dom Marcel Lefebvre, fundador da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (1970), após as ordenações sacerdotais de 29 de junho de 1976, em 22 de julho do mesmo ano, fora suspenso a divinis.


Entre os católicos atentos, porém, haviam fortes dúvidas sobre a legitimidade canônica desta medida, e sobretudo não se compreendia o comportamento de Paulo VI, que parecia querer reservar suas censuras apenas a quem professava o querer permanecer fiel à Tradição da Igreja. Neste clima de desorientação, em abril de 1977, a princesa Elvina Pallavicini (1914-2004) decide convidar D. Lefebvre em seu palácio, no Quirinal, para escutar as suas razões.

A princesa Pallavicini tinha 63 anos e era viúva, desde 1940, do príncipe Guglielmo Pallavicini de Bernis, caído em sua primeira missão de guerra. Há muitos anos vivia sobre uma cadeira de rodas, por causa de uma paralisia progressiva, mas era uma mulher de temperamento indomável. Ao redor dela havia um pequeno grupo de amigos e conselheiros, entre os quais o marquês Roberto Malvezzi Campeggi (1907-1979), coronel das Guardas Nobres pontifícias no momento da dissolução do corpo [de guarda] ([em] 1970) e o marquês Luigi Coda Nunziante di San Ferdinando (1930-2015), comandante da Marinha militar italiana. A notícia da conferência, difundida no mês de maio, não despertou, de início, a preocupação do Vaticano.


Paulo VI julgou que seria fácil convencer a princesa a desistir de sua idéia e confiou a tarefa a um estreito colaborador seu, “don Sergio” Pignedoli (1910-1980), feito cardeal por ele em 1973. O purpurado telefonou à princesa com tom afetuoso, informando-se, antes de tudo, da sua enfermidade. «Fico contente — observou Elvina Pallavicini com ironia — por este seu interesse depois de tanto tempo de silêncio». Após quase uma hora de cortesias, o cardeal finalmente chegou à pergunta: «Sei que a senhora receberá D. Lefebvre. Mas será uma conferência pública ou privada?». «Na minha casa não pode ser senão privada», replicou a princesa. O cardeal então arriscou: «Não seria oportuno adia-la? D. Lefebvre fez sofrer tanto ao Santo Padre, que se encontra muito sentido por esta iniciativa…». A resposta de dona Elvina gelou o cardeal Pignedoli. «Eminência, em minha casa creio poder receber quem desejar receber».


Diante desta inesperada resistência, o Vaticano dirigiu-se ao príncipe Aspreno Colonna (1916-1987), que ainda desempenhava, ad personam, o cargo de assistente ao Sólio pontifício. Quando o chefe da histórica estirpe pediu para ser recebido, a princesa fez-lhe saber que estava ocupada. O príncipe Colonna solicitou audiência para o dia seguinte à mesma hora, mas a resposta da nobre foi a mesma. Enquanto o príncipe se retirava em boa ordem, a Secretaria de Estado pensou em mudar a música. Pediu então audiência à princesa mons. Andrea Lanza Cordero di Montezemolo, apenas consagrado arcebispo e nomeado núncio em Papua-Nova Guiné.


O prelado era filho do coronel Giuseppe Cordero Lanza di Montezemolo (1901-1944), chefe da Resistência monárquica em Roma, fuzilado pelos alemães nas Fossas Ardeatinas. Durante a ocupação alemã, a jovem princesa Elvina houvera colaborado com ele, merecendo uma medalha de bronze ao valor militar. Participei também eu ao colóquio, mas minha presença incomodou não pouco o futuro cardeal, que em vão fez apelo à memória do pai para esconjurar a iminente conferência. Ao núncio fora lembrado que, precisamente, a resistência de tantos militares ao nacional-socialismo recordava como, às vezes, era necessário desobedecer às ordens injustas dos superiores para respeitar os ditames da própria consciência.


A Secretaria de Estado joga, a este ponto, o último golpe, dirigindo-se ao Rei da Itália, no exílio em Cascais, Umberto II. O marquês Falcone Lucifero, ministro da Casa Real, telefonou à princesa para fazê-la saber que o Soberano lhe pedia vivamente que adiasse a conferência. «Surpreendo-me como Sua Majestade se deixe intimidar pela Secretaria de Estado, depois de tudo aquilo que o Vaticano fez contra a monarquia», respondeu ela com firmeza, reiterando que a conferência aconteceria pontualmente na data marcada.


O marquês Lucifero, como velho gentil-homem que era, enviou à princesa um maço de rosas. A esta altura o Vaticano decidiu passar a modos mais duros. Iniciou nos principais jornais italianos uma verdadeira campanha de terrorismo psicológico para apresentar a princesa como uma aristocrata turrona, rodeada por uns poucos nostálgicos de um mundo destinado a desaparecer. Em privado, fez-se saber a dona Elvina que, se a conferência acontecesse, [ela] seria excomungada.


Em 30 de maio, com um comunicado de imprensa no Ansa, a princesa precisou que «a sua iniciativa não era movida por nenhuma intenção de provocação à autoridade eclesiástica, mas sim por amor e fidelidade à Santa Igreja e ao seu Magistério». «Os contrastes da Igreja conciliar — ajuntava o comunicado — infelizmente existem, prescindindo da pessoa de Dom Lefebvre, e na Itália em medida não menos profunda, ainda que menos evidente, que no resto do mundo católico. Com a conferência de 6 de junho pretende-se oferecer a D. Lefebvre a possibilidade de exprimir diretamente e em plena liberdade as suas teses, precisamente com a finalidade de trazer uma contribuição de clarificação aos problemas que tantos turbam e entristecem o mundo católico, na certeza de que a paz e a serenidade poderão ser reportadas apenas por uma unidade encontrada na verdade».


Em 31 de maio, aparece na primeira página do jornal Il Tempo uma declaração do príncipe Aspreno Colonna na qual se lia que «o Patriciado romano se dissocia da iniciativa», deplorando-a como «de todo inoportuna». O canhão foi disparado, porém, em 5 de junho, pelo cardeal vigário de Roma, Ugo Poletti (1914-1977). Com uma violenta declaração publicada no jornal dos bispos italianos, Avvenire, Poletti atacava D. Lefebvre e «os seus aberrantes sequazes», definindo-os «grupos exíguos, prisioneiros nostálgicos de tradições consuetudinárias». Exprimia, além disso, «estupor, dor e sincera, mas firmíssima reprovação pela ofensa feita à Fé, à Igreja católica e ao seu Divino Chefe Jesus», tendo D. Lefebvre posto em dúvida «verdades fundamentais, especialmente acerca da infalibilidade da Igreja católica, fundada sobre Pedro e seus sucessores, em matéria de doutrina e de moral».


Do quartel general da princesa imediatamente veio a resposta. «Não se consegue entender como a expressão privada de teses, que foram aquelas de todos os bispos do mundo até poucos anos atrás, possa turbar a tal ponto a segurança de uma autoridade que tem ao seu lado a força da continuidade doutrinal e a evidência das suas posições». A princesa declarou: «Sou Católica Apostólica Romana mais que convicta, porque alcancei o verdadeiro sentido da Religião através do afinamento do sofrimento físico e moral: não devo nada a ninguém, não tenho honrarias ou prebendas a defender, e de tudo agradeço a Deus. Nos limites nos quais a Igreja me consente, eu posso dissentir, posso falar, posso agir: devo falar e devo agir: seria covardia se não o fizesse. E me seja consentido dizer que na nossa casa, ainda nesta geração, não há lugar para os covardes».


Chegou finalmente o fatídico 6 de junho. A conferência era rigorosamente reservada a quatrocentos convidados, controlados pelo serviço de ordem assegurado pelos jovens da Aliança Católica, mas eram mais de mil aqueles que enchiam as escadas e o jardim do histórico palácio Rospigliosi-Pallavicini, célebre em todo o mundo por suas obras de arte. D. Lefebvre chegou acompanhado por seu jovem representante em Roma, pe. Emanuele du Chalard. A princesa Pallavicini foi-lhes ao encontro em sua cadeira de rodas, empurrada por sua dama de companhia Elika Del Drago.


A princesa Virgina Ruspoli, viúva de Marescotti, um dos dois príncipes-heróis da batalha de El Alamein, doou a mons. Lefebvre uma relíquia de São Pio X que lhe fora dada pessoalmente por Pio XII. Malgrado o Grão Priorado da Ordem de Malta de Roma houvesse expressado «a necessidade inderrogável» de abster-se de tomar parte na conferência, o príncipe Sforza Ruspoli, o conde Fabrizio Sarazani e algum outro corajoso aristocrata, desafiaram as censuras da instituição e estavam na primeira fila, ao lado de mons. François Ducaud Bourget (1897-1984), que em 27 de fevereiro em Paris guiara a ocupação da igreja de Saint-Nicolas du Chardonnet. A princesa Pallavicini apresentou D. Lefebvre, que tomou lugar sob o baldaquino vermelho com o brasão do papa Clemente IX Rospigliosi.


O arcebispo, após ter-se recolhido em oração, exortou [aos presentes] com estas palavras: «Sou respeitoso da Santa Sé, sou respeitoso de Roma. Se estou aqui é porque amo esta Roma católica». A Roma católica que tinha de frente muitas vezes interrompeu seu discurso com retumbantes aplausos. A sala estava completamente lotada e a multidão se aglomerava nas escadas do palácio. O “Concílio do aggiornamento” — explicou mons. Lefebvre — quer, na realidade, uma nova definição da Igreja. Para ser “aberta” e para estar em comunhão com todas as religiões, todas as ideologias, todas as culturas, a Igreja deveria mudar as próprias instituições, demasiado hierárquicas, e despedaçar-se em inúmeras Conferências episcopais nacionais.


Os sacramentos insistirão sobre a iniciação e sobre a vida coletiva, mais que sobre o distanciamento de Satanás e do pecado. O leit-motiv da mudança será o ecumenismo. Desaparecerá a prática do espírito missionário. Será enunciado o princípio [de que] «todo o homem é cristão e não o sabe», [e que] portanto está à procura da salvação, qualquer [que seja a] confissão [que] pratique. As mudanças litúrgicas e ecumênicas — prosseguiu mons. Lefebvre no mais recolhido silêncio dos presentes — provocam o desaparecimento das vocações religiosas e tornam desertos os seminários. O princípio da “liberdade religiosa” soa ultrajante para a Igreja e para Nosso Senhor Jesus Cristo, porque isso não é outra [coisa] que «o direito à  profissão pública de uma falsa religião sem o distúrbio de nenhuma autoridade humana».


D. Lefebvre se deteve, então, sobre os cedimentos pós-conciliares ao comunismo, recordando as repetidas audiências [concedidas] aos chefes comunistas por parte da Santa Sé; o acordo para não condenar o comunismo durante o Concílio; o tratamento desprezante reservado a mais de 450 bispos que pediam esta condenação. Ao contrário, encorajou-se o diálogo com o comunismo, nomeando bispos filomarxistas, como D. Helder Câmara, no Brasil, D. Silva Henriques, no Chile, [e] D. Mendez Arceo, no México. É um fato, juntou D. Lefebvre em conclusão, que numerosos dominicanos e muitos jesuítas que professam heresias abertamente não sejam condenados, e bispos que praticam a intercomunhão, que introduzem nas suas dioceses e nas suas igrejas falsas religiões, que chegam a abençoar o concubinato, não sejam postos sequer sob inquérito.


Apenas os católicos fiéis arriscam ser expulsos das igrejas, perseguidos, condenados. «Eu estou suspenso a divinis porque continuo a formar sacerdotes como se formava há algum tempo». Dirigindo-se a um auditório emocionado por suas palavras, D. Lefebvre concluiu sua conferência dizendo: «Hoje, o empenho mais grave para um católico é aquele de conservar a Fé. Não é lícito obedecer a quem opera para diminuí-la ou fazê-la desaparecer. Com o batismo, nós pedíramos à Igreja a Fé, porque a Fé nos conduz à vida eterna. Nós continuaremos, até o último suspiro, a pedir à Igreja esta Fé».


O encontro foi concluído com o canto do Salve Regina. O vaticanista Benny Lai, no La Nazione de 7 de junho, comentou: «Aqueles que esperavam um tribuno encontraram-se de frente a um homem de atitude branda, capaz ainda de concluir, antes de convidar os presentes a recitar a Salve Regina, com esta declaração: “Não quero  formar um grupo de qualquer gênero, eu não quero desobedecer ao Papa, mas ele não me deve pedir para me tornar protestante”».


A conferência foi uma vitória estratégica daqueles que impropriamente eram definidos tradicionalistas, porque D. Lefebvre conseguiu fazer conhecer as suas teses, no plano internacional, sem consequências canônicas. Paulo VI morreu um ano depois, comovido pela morte de seu amigo Aldo Moro. O nome do cardeal Poletti continua ligado ao escuro episódio do nulla osta por ele concedido em 10 de março de 1990 para a tumulação, na basílica de Santo Apolinário, do chefe da banda della Magliana, ‘Renatino’ De Pedis.


A princesa Pallavicini saiu vitoriosa do “desafio”. Não apenas não foi excomungada, mas, nos anos sucessivos, seu palácio tornou-se o ponto de referência de tantos cardeais, bispos e intelectuais católicos. Ela e seus amigos romanos não eram “fantasmas do passado”, como lhes definia o Corriere della Sera de 7 de junho de 1977, mas testemunhas da fé católica que preparavam o porvir. Quarenta anos depois, a história lhes deu razão.


Roberto de Mattei


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